Ela abre um espumante barato e brinda sozinha à volta da solidão. Não aquela que dói e fere, mas a solitude escolhida, que lhe abre um espaço macio para ser. Ao primeiro gole, percebe: o espumante é demi sec. Um equívoco para ilustrar a vida. O gole doce na taça rasa antiga de cristal azul que foi da mãe.
Repetições?
Tudo o que ela quer é voltar a tomar posse de si. Ser dona dos seus desejos de novo. Quais eram eles? – não se lembra.
Não é ruptura, é reencontro.
Desde que se tornou mãe. Desde que tomou posse da dor. Desde que se pôs na estrada. Desde quando?
Onde ela caminha nessa pista?
Há espaço para ultrapassar?
Para onde vai?
Larga o carro e segue a pé para não levar mais peso consigo?
Em alguns momentos ela só quer aumentar o volume do som e cantar bem alto, com o vento nos cabelos. Em outros, quer ter o privilégio de não guiar o carro, com a certeza de ainda assim estar indo.
Ela se entrega demais, se entrega muito, inteira, não sobra nada para si. Nem sabe mais como é a sua voz. Ela sai de si ao encontro do outro e deixa sua cama e sua casa vazias, sem o calor da sua presença. E depois cobra do outro o que lhe falta. Mas foi ela mesma que se tomou de si.
E então ela dança sozinha pela sala e sente o corpo como há muito tempo, com saudade de quem foi.
Para depois dar mais uma gole da bebida doce e amargar o gosto da escolha.
Exagerou na dose e a ressaca é toda sua.
Sábado, 18 de Maio de 2013
Sexta-feira, 8 de Março de 2013
Dia da Mulher
Não me dê flores só no dia 8 de março. Escolha qualquer um dentre os outros 364 dias do ano e repita a delicadeza mais vezes - de preferência, sempre em datas inesperadas. Me deixe falar de amor. Ou me cale a boca com um beijo. Não sou igual a você. Nem melhor, nem pior. Sirva a minha taça de vinho e façamos um brinde à diferença. Vamos juntos fazer o jantar: você coloca a mesa, eu como. E na hora de dormir, quando o cansaço invadir o seu corpo, abra um espaço nele pra mim. Me acolha e me aqueça de carinho, porque é no seu colo que eu quero morar.
Amém.
Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2013
Obras
Casamento é uma reforma que nunca se conclui. É preciso aprender a fazer festa a cada cômodo erguido, tomando cerveja no cimento e comendo um churrasco feito nos tijolos da construção.
Terça-feira, 16 de Outubro de 2012
Finalmente
Provavelmente ninguém vai lhe ensinar isto. Dê um jeito
de aprender, você vai precisar. Saiba desistir, porque em algum momento da
vida isso vai ser necessário. Focar o que é, e não o que poderia ter sido. Colocar
a vida à frente do orgulho. Seus desejos à frente do que os outros desejam pra você. Uma ousadia, um disparate, uma loucura, eu sei. Provavelmente ninguém vai lhe ensinar a entender o que você realmente deseja. Mas dê um jeito de aprender. Em algum momento da vida, desistir vai exigir mais coragem que seguir em frente. Desistir será o mesmo que parar de tentar. E parar de tentar pode ser finalmente o começo.
Quinta-feira, 5 de Julho de 2012
Porquinho
Ela economiza vida para que lhe sobre mais. Na tentativa de evitar a falta, vive na falta. Se ela tivesse um slogan, seria "Viva com moderação". Pra não gastar.
Domingo, 3 de Junho de 2012
Cadeado
Trancou
a escritora em casa e foi pra rua trabalhar. Tratou de abrir os olhos e um
sorriso, mas fechou ouvidos e punhos, de modo que qualquer raciocínio escorregasse
pela pele, sem aderência nem eco. As cenas que lhe passavam coloridas não
faziam sentido. A ordem era sorrir e seguir em frente.
Trancada
a pensadora no quarto, pôde seguir na direção do barulho. Tudo para não ouvir
seu turbilhão, ligada num piloto automático que sorria como maquininha de
soltar bolhas. Piada sem graça do cliente, hahaha. Pedido idiota do chefe,
hahaha. Prazo impossível do outro departamento e mais algumas risadas saíam sem
som, quase cronometradas.
Ato
contínuo, chegou em casa ainda sorrindo, embora não soubesse por quê.
Ao
abrir a porta, foi surpreendida por uma mulher aflita, que caiu no choro sem
fim. E enquanto chorava, falava. Eram mais que frases, eram versos. Em
poucos minutos ela já tinha dito um livro inteiro.
Antes
de ouvir a última página, adormeceu exausta. Sem pensar nem sentir.
No
dia seguinte ela acordaria mais uma vez. Para então decidir qual das duas
sairia de casa.
Quarta-feira, 25 de Abril de 2012
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